Anjo Torto

No momento culminante,

da vida desamante,

não pode haver mais coração…

Mário Faustino, diz…

Torquato Neto, infeliz

letrista da perfeita solidão.

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Renneé Cardoso Fontenele

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Escritor Renneé e Filha

CADA MACACO EM SEU GALHO?

O título acima, sem nenhum desdém, se me parece, vez por outra, um dito tão coerente quanto sua aplicação no que concerne à gestão escolar.

Estou ciente de que não divago e não me precipito, nem mesmo deixarei que meu conhecimento a respeito me envolva pelo véu do engano, uma vez que disto tenho ciência tal qual um costureiro ao ser solicitado a reparar alguma vestimenta ou um desenhista o esboço de formas e traçados com sombras ou não…

A proposta educacional se diz consciente da importância de haver, acima de tudo, o ensino-aprendizagem. Em outros termos, diz-se que todas as ações (planejadas e flexíveis) se voltam para o desenvolvimento da eficácia educativa: a condição ao aluno de aprender a aprender.

Pois bem. Via de regra, contudo, isso não acontece a contento. Ora, tudo isso pressupõe a atuação de profissionais habilitados, realmente. Então, pergunta-se: de que forma conseguir a produtividade esperada pela Ciência da Educação, tendo em vista a verificação de pessoas “atuando” à frente duma escola, por exemplo, sem a devida formação, exigida pela LDB? Ou, ainda, quando há tal formação acadêmica, são desprovidas de flexibilidade, autocrítica, ponderação e tudo o mais que rezam os enlaces pedagógicos?

Pensemos, pois, no primeiro caso, profissionais de outras linhas do conhecimento exercendo a função de gestores, cuja fundamentação teórica se limita ao retrocesso passo das recordações quando estudantes, e ou ancorados em exemplos tradicionais, aplicados por Diretores e Coordenadores com os quais trabalharam (por isso, lhes servindo de base), noutra oportunidade, realizando, desordenadamente, uma idéia aqui, outra acolá.

Já o segundo caso, por sua vez, teoricamente habilitados, não se apresentam como seres ajuizados e condizentes ao contexto sociocultural no qual estão inseridos, por não se enquadrarem aos moldes, por assim dizer, da contemporaneidade, trabalhando de maneira errônea, deficiente e restrita.

Fato é que não parece haver fim – pelo menos, a diminuição significativa –, infelizmente, a incoerência que há entre o que se propaga, o que reza a pedagogia e a prática escolar, diariamente em colégios públicos. Não basta a permuta de professores duma área atuando noutra, estruturalmente oposta. Não, não basta! A passos curtos, de professores aos gestores ou, como queiram, vice-versa.

O êxito na Educação depende do conhecimento apurado e da lida consciente de educadores e professores, que, em conjunto, exercem suas funções com propriedade, garantindo, assim, a qualidade do ensino e a razão das Instituições de Ensino Superior, ainda que haja esforço de outrem no sentido de prestar serviços de qualidade, sem a passagem pelo Curso específico.

Portanto, cada macaco em seu galho continua, deveras, significando, vigorando, sendo fundamental na Educação, quando se prima por um desenvolvimento pleno e salutar, justo e adequado, comprometido e responsável, porque a banana está para a bananeira e não para a laranjeira, igualmente a Educação está para os Educadores e não para os quebra-galhos.

Dezembro de 2008

PARA LÁ DO AMOR

[A beleza com que a noite se fez viva ao sonhador, que aos empoçados vales tanto dedicara o soturno pensamento, semeou seus inférteis campos, brotando-lhe, no amargurado seio paternal, uma fecunda vida, deveras.]

Que aprazimento me toma o espírito do estar, do presente perecível, do ver ao longe, porvir assentado pelo sentir esmero, à medida em que o observar me distancia da solidão lúgubre, soez,  frente  às intempéries do meu pequenino haver, até percebê-lo?

Romperam-se, de modo abrupto, os grilhões que me atavam às donzelas solitárias noturnas, e a alça da Criação me pôs,  brandamente,  a grifar um sentimento infindo, luzente, apraz, amorável… valor indefinível, por ausência própria de exatidão, tamanha feitura criacional – bem o sei, pois a plenitude de seu lirismo houve de me arremeter, sorrateiramente, à extremidade de seu afeito saber.

Primeira vida minha, a prole sonhada no entornar de lágrimas sob tal fenômeno da existência. Porquanto repousa minha celestial  atenção sobre sua vistosa face; acompanham os seus vívidos olhos marinhos os meus – como os pássaros o fazem, ao resguardarem sua linhagem – , e, desmedidamente, à Criação rogo que eu perdure, a fim de lhe significar, querida filha, contemplando-a  em sua limpidez, refulgindo, ao nosso lado, com peculiar candura.

A bem de minha verdade, para o que sinto, no viço dessa nova vereda, tenra filha, não chegam as palavras, irrefletem, ao cabo, o meu assaz desejo de manifestá-lo.

Com que ânsia de expressão ora figura em meu peito  a alma já exausta de dantes, cuja fronde, de secas folhas, que a amortalhara tristonha se esvaiu? Vivera, até então, a raiz íntima do meu infortunado contemplar, no negror vão do revoar das ilusões – agora sepulta, no arcaico covão do além; esquecida, por fim, no porão de minha indelével ventura.

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(Texto dedicado ao nascimento da filha – 14 de dezembro de 2006 – Maria Regina)

Escritor Renneé Cardoso Fontenele

…Quinze minutos

…Quinze minutos parecem não ouvir o meu suplício. À espera, ansioso, pelo fim dum curto período – no qual minha sensibilidade me exige descanso, e  minha mente me atropela o físico ou, de modo ameno, reduz o meu ser, limitando-lhe o espaço, qual rio sobremodo apertado entre os montes – persisto portando o esquálido espírito, franqueado em algumas frações de segundos…Percebo-me fóssil, pois.

Meu espírito, porém, me entusiasma, e isto, provavelmente, me equilibra a existência, num envoltório que, dadas as circunstâncias, reflete o que sou, o que deveria e o que serei, socialmente. Há algo que freme dentro de mim… Há algo de furor que me algema a alma à vontade quase que liberta dos meus algozes perniciosos. Não mais ouso refletir sobre o reflexo que de meu ser emana ao convívio  em sociedade (como fazem outros seres, via de regra), porque, se refletir a respeito fosse mortal, haveria uma hecatombe. E tudo isso se me diz impessoal.

Aguardo por um trem que custa a chegar, ou nunca passará pela estação na qual me dediquei ao ofício do cumprimento, do realizável por mim: um ente menos do que um verbo por não mudar de forma; mas lhe sendo superior, uma vez pensante e pensado.

Hoje, o meu pendor é desacreditar da palavra humana, pondo-a em questão – a palavra foi responsável por isso.  Não sou protagonista de qualquer história senão da minha. E eis o relevante, o agora percebido com prudência e sobremaneira resignação.

PURO AMOR

Tão limpo o amor concebido é,

Gigante, puro e muito forte,

É onda dum mar infindo até,

Estando em mim, ainda a morte.